Exposição individual
PRIMEIRA PARAGEM
- Ano
- 2026
- Datas
- 25/07/2026 — 6/01/2027
- Espaço
- Estação das Artes
- Cidade
- Mirandela, Portugal
- Curadoria
- Cláudia Melo
Sobre a exposição
Entrar em Primeira Paragem é entrar num tempo demorado, que suspende a velocidade do olhar e nos aproxima daquilo que as mãos sabem antes da palavra.
Susana Cereja parte do ponto de Arraiolos, técnica ancestral ligada à memória portuguesa, para deslocar o fazer têxtil do seu lugar tradicional e reinscrevê-lo na criação contemporânea. E este gesto importa, pois contraria a hierarquia que associou bordar, costurar e tecer ao feminino, ao doméstico e ao invisível. Aqui, o ponto afirma-se como linguagem, corpo e posicionamento artístico.
A exposição prolonga Casa de Partida (Arraiolos, 2025). Se aí se evocava origem, pertença e matriz afetiva, Primeira Paragem assinala o momento em que esses fios se deslocam. Mirandela torna-se lugar de escuta e transformação, e convocam-se as paisagens, as lendas e as memórias comuns.
Cruzam-se obras anteriores e novas criações e reconhecem-se os eixos, sempre presentes, no trabalho da artista: feminilidade, território, mitologia, comunidade e reinvenção. Através de figuras arquetípicas, gestos de cuidado e referências à natureza, as tapeçarias desafiam os limites técnicos e conceptuais do fazer tradicional e o ponto de Arraiolos opera como campo de experimentação plástica, narrativa e simbólica.
Nas novas obras, esse universo aproxima-se de forma mais direta a este território, evocando a memória da paisagem, a pedra, a água, a terra, a noite, as lendas e as imagens de resistência que atravessam o imaginário local. A figura feminina surge como presença central: corpo sensível, ferido, insurgente, ligado à terra e às suas forças de transformação.
Cada ponto implica tempo. Cada superfície bordada guarda decisões e recomeços. A obra nasce do corpo que se demora sobre a matéria e nos obriga a parar, a aproximar o olhar do gesto.
Primeira Paragem é uma exposição sobre movimento, mesmo quando se fala de pausa. Convoca o têxtil como encontro entre história, corpo, paisagem e comunidade.
Porque tecer é uma forma de conhecer.
E lembrar é o primeiro gesto de transformação.
Esta é a primeira das paragens.
Uma pausa necessária, não para interromper o caminho, mas para o abrir ao que permanece, ao que se transforma e ao que ainda há de vir.
Cláudia Melo
Curadora
Documentação