Individuais
CASA DE PARTIDA
- Ano
- 2025
- Datas
- 6/06/2025 — 28/09/2025
- Espaço
- Centro Interpretativo do Tapete de Arraiolos (CITA)
- Cidade
- Arraiolos, Portugal
- Curadoria
- Cláudia Melo
Texto curatorial
Cláudia Melo
Casa de Partida representa o ponto de origem - simbólico ou concreto - de um percurso, seja ele criativo, afetivo, político ou existencial. É o espaço onde germinam as primeiras intenções, onde se enraíza a memória e de onde partem os fios que tecem o futuro. Simultaneamente, constitui um espaço-tempo em movimento, que assinala o início de um jogo.
Esta exposição-intervenção foi concebida especificamente para o contexto de Arraiolos, convocando comunidades locais, evocando saberes ancestrais e ressignificando heranças culturais através do fazer artístico. A expressão “Casa de Partida” sugere não apenas um início, mas também a necessidade de um movimento contínuo, cíclico, onde se regressa frequentemente - seja para concluir algo ou para dar início a um novo percurso. Contudo, mais do que um simples movimento circular, trata-se de um vaivém hermenêutico, inspirado na proposta gadameriana de jogo, em que o significado não é fixo, mas emerge no ir e vir entre o que sabemos e o que estamos dispostos a descobrir.
O jogo, enquanto metáfora central, é fundamental para compreender a natureza da experiência humana. Assume-se como uma forma de interação e entendimento aberta, fluida, não orientada por um objetivo exterior, mas determinada pelo movimento e pelas regras emergentes no próprio ato de jogar.
No âmbito desta Casa de Partida, são apresentadas 14 obras e uma instalação em espaço público, que resultam de um processo deliberadamente lento, privilegiando o tempo da escuta, da relação e da criação partilhada. Este processo, conduzido por Susana Cereja, assume-se como uma prática artística que se constrói com as comunidades, sendo também compreensível como um jogo - um espaço de constante recomeço e reconstrução.
As obras expostas são realizadas com a técnica ancestral do ponto de Arraiolos, compondo uma narrativa poética e simbólica em torno da feminilidade, do território, da colectividade e da reinvenção. Em tapeçarias que desafiam os limites técnicos e conceptuais do fazer tradicional, a artista entrelaça mitologias, gestos de cuidado, memórias comunitárias e práticas sustentáveis. Dão corpo a figuras arquetípicas - como Rhea, Gaia, Ártemis e Theia - ou a peças que provocam o encontro e a interação, sugerindo um contínuo entre nascimento, transformação e renascimento.
A prática de Susana Cereja tem vindo a consolidar-se progressivamente em articulação com o fazer têxtil comunitário, entendido enquanto território simbólico de entrelaçamento de saberes, expressão cultural, resistência e construção colectiva.
O projecto integrou três residências artísticas, envolvendo mais de cinquenta participantes oriundos de Arraiolos, Torrão e Coruche. Sob orientação da artista, produziram em conjunto as obras agora instaladas em espaço público.
Bordar, costurar ou tecer são gestos milenares - frequentemente silenciosos, confinados ao espaço doméstico e associados ao feminino e ao invisível - que, no contexto desta prática artística, se transformam em formas profundas de criação estética, afirmação identitária e transformação social.
O labor têxtil torna-se, assim, um gesto colectivo e político: cada ponto bordado encerra a promessa de liberdade, escuta e futuro. A "Casa de Partida", enquanto espaço simbólico ou geográfico, converte-se num território fértil de criação e resistência partilhada.
Este é um convite à celebração da vida em trama: múltipla, viva e política. Uma convocação à escuta do que as mãos contam - quando se reúnem, quando se lembram, quando se rebelam. Porque tecer é também história, território e possibilidade.
Documentação